Neurodivergência: mais do que um diagnóstico
Atualizado: 4 de out.
Nos últimos anos, a palavra "neurodivergência" passou a aparecer cada vez mais em conversas, nas redes sociais e nos consultórios. Mas o que ela significa? E como a psicoterapia pode ajudar pessoas neurodivergentes e suas famílias?
O que é neurodiversidade?
Neurodiversidade é a ideia de que existem diferentes formas de o cérebro funcionar, perceber o mundo e aprender. Pessoas neurodivergentes são aquelas cujo funcionamento difere do que é considerado típico, como no Transtorno do Espectro Autista (TEA), no Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e na Síndrome de Tourette.
Na pesquisa científica, essa perspectiva vem ganhando força: em vez de olhar apenas para "déficits", ela convida a considerar também as habilidades, os interesses e o ambiente em que cada pessoa vive (Pellicano & den Houting, 2022).
O diagnóstico é um ponto de partida
O diagnóstico, feito a partir de critérios como os do DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2023), é importante: ele ajuda a compreender dificuldades, garantir direitos e orientar o cuidado. Mas ele não define quem a pessoa é. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter necessidades, talentos e desafios muito diferentes.
Como a psicoterapia pode ajudar
O objetivo da terapia não é mudar quem a pessoa é, mas oferecer ferramentas para que ela viva com mais bem-estar e autonomia. Alguns focos possíveis:
Regulação emocional: reconhecer e lidar melhor com emoções intensas.
Habilidades sociais: compreender situações sociais e se comunicar de forma mais confortável.
Autoestima: construir uma visão mais gentil e realista de si mesmo.
Ansiedade e humor: cuidar de dificuldades que frequentemente acompanham a neurodivergência.
Organização e rotina: estratégias práticas para o dia a dia, os estudos e o trabalho.
O que dizem as pesquisas
A Terapia Cognitivo-Comportamental, com as devidas adaptações, tem mostrado resultados positivos. Uma meta-análise com 48 estudos encontrou efeitos moderados da TCC no cuidado de ansiedade e outras dificuldades emocionais em pessoas autistas (Weston et al., 2016).
No TDAH em adultos, um estudo clínico randomizado mostrou que a TCC ajudou a reduzir sintomas que persistiam mesmo com o uso de medicação (Safren et al., 2010). Já na Síndrome de Tourette, uma intervenção comportamental específica para tiques levou a uma melhora significativa em cerca de metade das crianças tratadas, contra menos de um quinto no grupo de comparação (Piacentini et al., 2010).
O papel da família
No caso de crianças e adolescentes, a participação dos pais e cuidadores é fundamental. Juntos, podemos compreender melhor o funcionamento da criança e construir estratégias que façam sentido em casa, na escola e nas relações sociais.
Cada pessoa tem o seu tempo e o seu jeito de aprender. Respeitar essas particularidades é o primeiro passo para um cuidado verdadeiramente acolhedor.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma avaliação individual com um profissional de saúde mental.
Referências
American Psychiatric Association. (2023). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR (5. ed., texto revisado). Artmed.
Pellicano, E., & den Houting, J. (2022). Annual Research Review: Shifting from 'normal science' to neurodiversity in autism science. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 63(4), 381–396.
Piacentini, J., Woods, D. W., Scahill, L., Wilhelm, S., Peterson, A. L., Chang, S., Ginsburg, G. S., Deckersbach, T., Dziura, J., Levi-Pearl, S., & Walkup, J. T. (2010). Behavior therapy for children with Tourette disorder: A randomized controlled trial. JAMA, 303(19), 1929–1937.
Safren, S. A., Sprich, S., Mimiaga, M. J., Surman, C., Knouse, L., Groves, M., & Otto, M. W. (2010). Cognitive behavioral therapy vs relaxation with educational support for medication-treated adults with ADHD and persistent symptoms: A randomized controlled trial. JAMA, 304(8), 875–880.
Weston, L., Hodgekins, J., & Langdon, P. E. (2016). Effectiveness of cognitive behavioural therapy with people who have autistic spectrum disorders: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 49, 41–54.
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